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Edgar Pereira ao lado da peça “Mão Brasil”

Por: Liliane Moreira

 

O economista Edgar Pereira tinha 62 anos quando enxergou uma carranca do rio São Francisco num tronco cortado e abandonado na rua de seu bairro, em São Luís (MA). Era um tronco igual a tantos que restam dos cortes e queimadas nos terrenos baldios. Ele levou a madeira para casa, talhou, pintou e deu a obra por acabada. “Ficou parecida com um gorila, não com uma carranca”, conta, rindo muito.

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“Carranca”: primeira peça (2006)

Mas ele não tinha a perfeição como meta, afinal nunca havia feito nada em artes plásticas. Aposentou-se na área financeira do Instituto de Pesos e Medidas do Maranhão – IPEMAR, nunca fez curso de artes, nunca conversou com alguém sobre dicas de pintura ou pesquisou o tema na internet. Nem sabe de onde surgiu essa vontade de esculpir. Sua suspeita é a de que a admiração pelas artes ficou marcada em seu inconsciente de menino. Quando tinha dez anos, conheceu um maestro que fazia esculturas de animais nas horas vagas e gostava de admirar o que o maestro fazia. “Pode ter sido por isso”, supõe. Mas o fato é que a experiência da carranca-gorila (foto ao lado) foi há dez anos e de lá para cá ele nunca mais deixou de andar pelo bairro à procura de pedaços de madeira que o façam lembrar algo. Ele prefere procurar as madeiras, em vez de receber doações. Vê na matéria bruta o que, certamente, a maioria de nós não veria. Assim como a maioria de nós também não arriscaria fazer uma exposição aos 72 anos de idade, sem se preocupar com as críticas. Pois, foi na sua exposição – a segunda –  que ele recebeu o Amo Meu Trabalho. Intitulada “Sobras da Flora”, as 18 peças atraíram cerca de 200 visitantes ao Centro de Criatividade Odylo Costa Filho.  Nós fomos saber como ele descobriu este novo talento após sua aposentadoria. Além de dividir conosco sua história, ele ensinou que enquanto houver vida devemos expandir nossos sentidos.

 

Amo Meu Trabalho- Como um economista descobriu o talento para a arte?

Edgar Pereira– Começou por acaso. Eu não queria ser aquele aposentado que fica dormindo depois do almoço ou vendo TV. Acho que quem fica só fazendo isso morre mais cedo porque não desenvolve a mente. Então, passei a andar pelo bairro. Numa dessas andadas, em 2006, eu vi uma tora de madeira que lembrou uma carranca de São Francisco. Levei para a casa e decidi que ia fazer a carranca. Ela ficou estranha, mais parecendo um gorila, de um lado, e uma raposa do outro (risos), mas aí é que me deu vontade de continuar fazendo, uma vez que eu percebi que de um tronco poderiam surgir várias imagens. E aí todos os dias eu saía procurando galhos e troncos que lembrassem alguma coisa. Este galho, por exemplo, não parece um jacaré com uma serpente, um tucano, e um martim-pescador (pássaro)?

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“Clamor” dos animais: jacaré, serpente, tucano e martim-pescador

AMT- Desculpe, sr. Edgar, mas eu jamais veria esses quatro animais antes de o sr. pintar a peça. Como o sr. desenvolveu este olhar?

Eu fixei a ideia que eu tinha de sempre encontrar alguma coisa. Não estudei nada, não conversei com ninguém, só saía com a ideia na mente.

AMT- Até hoje a fonte de pesquisa é o seu bairro?

É. Não saio do meu bairro. Tem gente que leva para mim, mas eu não gosto, porque eu gosto de enxergar a figura na peça. Não vou moldar um pedaço de madeira qualquer.

AMT-  Para quem o sr. mostra suas peças assim que ficam prontas?

Para minha família.

Da filha Tatiana: incentivo
Da filha Tatiana: críticas construtivas

AMT- Eles incentivam?

Sim, eles dão opinião, criticam.  Eu ouço todas e aproveito algumas. Não fico preocupado com as críticas negativas. Estou fazendo isso como um passatempo, porque eu gosto, não para ser perfeito.

AMT- Achei muito interessante a peça que tem 13 lendas de São Luís. O sr. moldou a serpente, que faz parte de uma lenda conhecida da cidade. Como ocorreu este processo de criação?

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“Lendas e Mitos de São Luís”

Encontrei um galho e fiquei observando. Era na época do aniversário de São Luís- 400 anos. Observei que a madeira tinha uma lombada interna e eu fixei o olhar nas lendas que existem sobre a ilha, para homenagear São Luís. Sabendo desse meu interesse, minha filha Tatiana me mostrou um livro dela sobre as lendas do Maranhão e nele encontrei a lenda de olhos d´água. Conta a estória de uma índia apaixonada por um índio que casa-se com outra.  Na praia do Olho d´agua em nossa cidade tem duas vertentes paralelas. Elas representam as lágrimas da índia. Por isso, o nome da praia. A peça mostra essa lenda. Outra que retratei na mesma peça é a lenda da Manguda. Essa fala da época em que São Luís era habitada somente até a praça Gonçalves Dias. Os contrabandistas, que sempre existiram, tinham acesso à cidade pelo rio Anil, por trás da ponte Bandeira Tribuzzi, e despejavam seu contrabando lá. Para flagrar o movimento, o Governo mandou fiscais da alfândega para fiscalizar a área à noite. Como estratégia, os contrabandistas resolveram fazer uma armação de madeira com olhos de fogo. Colocaram lamparina e cabelos vermelhos. Virou uma assombração para espantar os fiscais que saíam correndo com medo (risos).  É outra lenda, mas dizem que foi verdade.

AMT- Queria que o sr. falasse sobre a peça “Atleta”. Achei incrível a perna dobrada dele. O senhor já encontrou o tronco assim?

O galho já estava dobrado. Eu achei na época das Olimpíadas e resolvi homenagear os atletas. Está na posição de um jogador chutando ou um corredor correndo. Peguei outra madeira que tinha lá e fiz a base, pintando os anéis olímpicos. Por isso que eu digo: eu trabalho pela tendência da madeira. Eu não forço nada. Tanto que ele não tem mãos, porque o galho não tinha a forma da mão.

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“Atleta”: galho dobrado é chute

    AMT- Por falar em mão, o sr. tem três esculturas que destacam as mãos, sendo que a “Mão Brasil” ganhou destaque no centro da exposição. Qual a mensagem que o sr. quer transmitir com esta peça?

Tinha uma árvore centenária no bairro. Tocaram fogo nela e ficou só essa ponta com um buraco no meio. Eu achei parecido com o mapa do Brasil. Eu serrei para aproximar um pouco mais do formato do mapa e moldei um pouco os dedos. Quis deixar a peça tostada como encontrei, a fim de provocar uma crítica contra queimadas.

AMT-  “Clemência”  destaca também a mão e com muita perfeição. A peça estava inteira e o senhor talhou?

Esta é uma senhora mão, né? (risos).  Era um galho de amendoeira. Aliás, a maioria é de amendoeira. A mão maior representa a mão masculina e a menor, a feminina. Neste ramo, tem ainda animais e plantas. A clemência é como que dizendo “O que vocês vão fazer com a gente?”.

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“Clemência”: o que vão fazer?

AMT- Qual a média de tempo para a produção de uma dessas peças?

A que levou menos tempo foi a que parece uma gazela. Eu não precisei trabalhar muito nela, só pintei. Ela já estava pronta. Mas, em geral, duas semanas.

AMT- Não é um trabalho muito cansativo? Não dói sua coluna e suas mãos?

Quando a coluna dói, eu levanto e vou fazer outra coisa. Aí passa a dor, e eu volto. Aquilo que é mais dolorido é mais valorizado. Aquilo que é muito fácil, o valor é superficial.

AMT- O sr. esperava essa quantidade de visitantes? 200 pessoas admirando suas peças… O que o sr. acha disso?

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“Mão esquerda”: protesto

Talvez seja até mais, pois muita gente não assina o livro, mas eu gosto muito de ver como elas observam. Algumas vieram perguntar se as peças podem pegar sol, pois queriam colocá-las no jardim, mas eu respondi a verdade.  Não pode pegar sol, pois a maioria não é madeira resistente. Achei interessante quando uma senhora comprou uma peça para usar como mesa na casa dela. A peça é a mão segurando um corte, como se a mão estivesse apresentando “Olha o que o homem faz”. Então, neste caso, a peça servirá como protesto e utilidade. Foi analisada sob um outro olhar. Fiquei feliz.

 

 

 

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“Raiz”: universo do Colonizador, Negro e Índio